Subjetividade e objetividade

O que são subjetividade e objetividade

Rapidamente, podemos dizer que o mundo objetivo é o mundo lá fora. É o mundo com que nós nos relacionamos. É o que existe fora de nós. O mundo subjetivo é o que está fora de nós. Nossas crenças, opiniões, conhecimento, gostos, preconceitos, memórias e intenções.

Verdade objetiva seria uma Verdade que existe independentemente dos sujeitos. É algo que existe antes da nossa análise do mundo. É algo que precisa ser descoberto, em vez de criado. Exemplo: a eletricidade. 

Verdade subjetiva seria uma verdade individual. A ela estão reservados os gostos, preconceitos e opiniões. Exemplo: gostos musicais.

Como a verdade se apresenta?

Imagine uma sala.

Dentro dessa sala há uma esfera. A esfera é segmentada em quatro partes, cada uma de uma cor. Há três pessoas nessa sala. Cada uma vê a esfera a partir de um ângulo diferente, e portanto a descreve de forma diferente.

Limitados por suas perspectivas individuais todos acreditam estarem corretos. Todavia, se cada um ousar se por no lugar do outro, compreenderá por que é que veem a situação daquela forma.

De certo modo, todos estão parcialmente corretos. A esfera é sim azul e vermelha e verde, mas ela também é verde, rosa, e azul. Poder vê-la por diversos ângulos permite uma compreensão que foge a daqueles que só veem um.

Se uma quarta pessoa diz que “a esfera é amarela”, certamente ela está errada. Isso pode ser feito por simples ignorância ou pode ser uma atitude intencional. Seria, entretanto, uma mentira fácil de identificar.

Mentiras bem feitas, entretanto, costumam ser pelo menos das duas uma: ou reconfortantes, ou misturadas com verdades. Se dizemos mentiras absurdamente falsas obviamente não seremos creditados. Mas se dizemos muitas verdades e a envenenamos com mentiras estas serão mais dificilmente notadas.

Retornado à metáfora da esfera, um bom mentiroso, então, poderia dizer que cada um tem sua própria esfera. Que a esfera é diferente pra todo mundo, e que portanto não existe uma descrição mais ou menos válida da esfera. Todas as esferas são de igual valor.

Mas se a esfera existe de fato, se a podemos ver e sentir, então devem haver descrições mais valiosas que outras. Se dizem que a esfera possui oito vértices que conectam suas seis faces quadradas essa certamente seria uma descrição menos válida do fato. Essa é a descrição de um cubo, e não de uma esfera.

Logicamente, fatos não podem ser descritos de acordo com gostos, mas sim com fidelidade. Fazer menos do que isso é no mínimo errar e no máximo mentir.

Isso não quer dizer que não há espaço para gostos ou opiniões. Verdades subjetivas existem, e elas abarcam coisas como gostos em relação a música e culinária.

Neste caso, ambos os indivíduos estão certos. Se buscássemos um fato objetivo sobre o chocolate aqui só poderíamos encontrar afirmações que independem das pessoas, como o fato de que ele possui 70% de cacau em sua composição.
Sabemos que a Terra é aproximadamente esférica. Por mais revolucionário que seja, acreditar que ela tem o formato de um dinossauro nunca será o correto. Diferentemente do chocolate, fatos não estão sujeitos a gostos.

“(…) Quando as pessoas pensaram que a Terra era plana, elas estavam erradas. Quando as pessoas pensaram que a Terra era esférica, eles estavam erradas. Mas se você acha que pensar que a terra é esférica é tão errado quanto pensar que a terra é plana, então sua visão está mais errada do que as duas outras juntas.”

Isaac Asimov

Dizer que a esfera é diferente do que ela é é uma mentira. É mentira dizer que a esfera é amarela. É mentira dizer, também, que a esfera não existe. É insincero dizer que “cada um tem sua própria esfera”, quando a esfera se apresenta, concretamente, diante de todos ali presentes. Pode ser que cada um a veja de um ângulo diferente, mas isso não muda a esfera. Podemos, por analogia, usar essa atitude frente a fatos científicos, históricos e políticos, e saberemos claramente que gostos não alteram fatos.

O que deve ser feito então não é mudar o próprio gosto, mas sim compreender melhor o próprio fato.


O Mundo Objetivo

A Terra parece plana.

Se formos a uma praia e olharmos para o horizonte veremos uma linha reta. Seria lá a borda do mundo?, pensou o homem medieval comum. Na borda do planeta haveria o abismo onde morariam as mais absurdas bestas, como os dragões, e ousar aventurar para lá resultariam em não mais do que a perdição.

Podemos julgá-los? Eles não tinham mais do que os próprios olhos. Os olhos são úteis para conhecermos o mundo, mas existem outras ferramentas melhores. Os próprios gregos sabiam em anos anteriores a Cristo que a Terra é esférica.

Como descobriram isso? Através de duas ferramentas que vão além dos sentidos: imaginação e matemática.

Isso não quer dizer que a imaginação é o grande ditador da verdade objetiva, mas que ela pode (e deve) ser usada para que possamos entender melhor o que é isso que estamos vivendo. Testando aquilo que imaginamos podemos então verificar se o que imaginamos é ou não verdadeiro.

Fonte da imagem: este artigo no Obsurdity. 

Os sentidos físicos — principalmente a visão — não nos dizem toda a verdade. Eles só nos dão uma percepção superficial das coisas, e percepção não é realidade. O que é percebido deve ser testado, criticado, indagado para que possamos alinhar nossa percepção com a realidade.

Esse é objetivo da ciência: alinhar a percepção com a realidade.


Todavia, nossas crenças podem mudar nossas percepções dos fatos. Essa é uma das bases da teoria cognitivo-comportamental: nossos pensamentos, sentimentos e ações são moldados de acordo com com nossas crenças.

Se acreditamos sermos insuficientes de algum modo, pensaremos dessa forma, e consequentemente nos sentiremos insuficientes e então agiremos de modo a concretizar nossa profecia autorrealizadora.

As crenças moldam a percepção. Isso quer dizer que, de acordo com o que acreditamos, podemos estar mais ou menos corretos no nosso modo de ver a realidade. Se acreditamos que a Terra é plana, ela não vai magicamente passar a ser plana. Porém, se a crença for forte, nós podemos ir atrás das evidências para corroborar nossa percepção. Quando encontramos, fortificamos a crença.

As crenças moldam a percepção, mas elas não moldam a realidade.¹

Se afirmamos que a percepção é igual à realidade, é porque eu só acredito nos meus sentidos. Mas como crenças tendem a confirmar a si mesmas, crença e percepção fortalecem um ao outro. Acabamos usando nossa percepção para confirmar nossas crenças e descreditamos tudo que vai de encontro a elas. E é aí que está o problema: se crenças tendem a confirmar a si mesmas, podemos supor que a verdade é aquilo em que eu acredito.

Isso é verdade em termos de chocolate e música, mas não é verdade em termos de fatos científicos, históricos e políticos. Acreditar que estes tipos de verdade são dependentes da crença individual é um grau menor de solipsismo.

O que é solipsismo?

Solipsismo é um sistema de crenças dividido em diversos graus, e está presente de diversas formas em nossa sociedade.

Do centro para fora: O UNIVERSO — eu, minhas coisas, coisas sobre mim, coisas que eu odeio, outros, lugar nenhum.

O solipsismo é definido formalmente como “a crença de que nada a não ser a própria mente é certo de existir”. O solipsista mais famoso de nossa história é René Descartes, mas em suas Meditações ele veio por fim a rejeitar esse sistema de crenças.

Em um menor grau, o solipsismo é a simples crença de que não existe uma verdade objetiva, e que a verdade é simplesmente aquilo que é criado em acordo. Alguns podem dizer que a verdade é inteiramente subjetiva, que tudo é sujeito à opinião.

A maioria das pessoas de nossa sociedade adota esses baixos graus de solipsismo. Todavia, existem graus mais avançados. O solipsismo pode ser chamado também de subjetivismo radical, e isso advém do fato de que solipsistas acreditam tanto que a verdade é subjetiva, que talvez o mundo inteiro possa ser subjetivo. Isso significa, basicamente, que o mundo inteiro é um reflexo de suas mentes, ou uma criação mental deles. Obviamente, isso pode resultar em atitudes consideravelmente narcisistas e, portanto, tóxicas.

Por que isso é perigoso?

O solipsismo é um modelo de pensamento presente em menor grau naqueles que acreditam na teoria da Terra plana.

Há escolas filosóficas mais recentes que afirmam que não existe verdade. A proposta dessas teorias é de que, se todos estão descrevendo o mundo de forma diferente, tudo o que temos são descrições, e não verdades. Verdade seria um conceito retrógrado, próprio dos tempos de inquisição. O problema é que isso deixa de fora é que se existem múltiplas descrições então existe algo sendo descrito. Esse algo é a verdade. O objetivo deve ser não só a utilidade, mas também a fidelidade.

Um outro grupo que também propaga o solipsismo, porém num grau maior, é o movimento New Age, que se manifesta através de afirmações ousadas apoiadas em interpretações errôneas de física quântica e a propagação de uma suposta lei da atração. O modelo de pensamento new age é o mais profundamente solipsista, afirmando, literalmente, que verdade é em que você acredita, e que até mesmo que toda a realidade externa é um reflexo do mundo interno — das crenças e das opiniões. Tudo isso, certamente, é feito para promover uma sensação de conforto e se desfazer da necessidade de responsabilidade.

O solipsismo não costuma ser promovido de forma explícita. Não se costuma dizer que o que você acredita é real, mas sim costuma-se a travar as pessoas em um sistema de crenças específico, ao mesmo tempo em que se busca impedir que elas saiam desse sistema de crenças. Passa-se então a confundir crença com realidade.

Se podemos definir a verdade de acordo com nossas crenças pessoais e nossos gostos e opiniões, podemos também definir o que é certo e errado subjetivamente. Se a verdade é inteiramente relativa, a moral também se torna inteiramente relativa. Os indivíduos são então desconectados de uma ideia de moral natural e a moral se reduz na melhor das hipóteses ao que é imposto pelo Estado², e na pior como totalmente inexistente e arbitrária. Este é o primeiro nível de solipsismo — a verdade é um acordo. 

Sabemos que a eletricidade não é criada em acordo, mas descoberta. Da mesma forma, a moral não é criada, mas descoberta. A bússola que guia a descoberta da moral objetiva é o sofrimento. Para mais investigações a esse respeito, recomendo a série Maps of Meaning, de Jordan Peterson. Infelizmente isto só se encontra disponível em inglês ou com legendas em Espanhol.

Esse sistema de crenças a longo prazo fomenta ignorância voluntária. Ignorância voluntária resulta em falta de conhecimento. Enquanto uns se abstém da aquisição de conhecimento, outros adquirem cada vez mais e mais. É criado então um abismo entre essas pessoas — um abismo de Poder, pois conhecimento é Poder. A adoção da crença de que a verdade é subjetiva ou que não existe verdade, então, não é benéfica para quem acredita nela. Ela só pode beneficiar um grupo de pessoas que discorda dela.

Certamente, a melhor forma de esconder a verdade de alguém é fazer com que essa pessoa acredite que a verdade não existe ou que é totalmente arbitrária.

Por que é importante nos importarmos com a verdade? Por que é importante conceber a existência de uma realidade objetiva?

Terence McKenna definia a Verdade como o “Objeto Transcendental No Fim do Tempo”. Segundo ele, cada pessoa pode ter acesso à visão de uma parcela da Verdade [Objetiva]. Ele chamava cada parcela de scintilla, ou fagulha, que emanaria de uma fonte central. Ele afirmava que esse Objeto metafórico seria semelhante a uma esfera brilhante de uma discoteca, e que cada um seria atingido por uma de suas fagulhas.

A verdade é como Pi. Se dizemos que o valor de Pi é igual a 1 estamos redondamente enganados. Se dissermos que o valor de Pi é 9, continuamos enganados.

Agora, se dissermos que Pi é igual a 3 estamos mais próximos da realidade. Se dissermos que é 3.14, estamos ainda mais corretos. Se 3.1416, ainda mais. Podemos continuar prosseguindo indefinidamente. Nunca teremos a ciência absoluta, mas progressivamente nos afastaremos da ignorância. Podemos nunca estar absolutamente certos, mas com essa busca nos tornaremos menos errados. A ciência nunca acabará. Nunca alcançaremos uma Verdade estática. O objetivo é a busca.

Existe um provérbio comum em programação neurolinguística: o mapa não é o território. Nossa concepção do mundo não é o próprio mundo. Entretanto, se mudamos nossa concepção do mundo mudamos nossa relação com o mesmo. Ao mudar nossa relação mudamos nossos resultados.

Quanto mais a nossa percepção condiz com a realidade, melhor. Quanto mais o mapa se parece com o território, melhor. Buscar a verdade é buscar desenhar um mapa mais semelhante ao mundo, e potencialmente oferecê-lo a outros para que não tropecem nos buracos em que caímos em nossa própria busca.

Quanto mais conhecemos o território, mais somos livres, pois seremos menos limitados pelo erro. Errar faz com que tenhamos que corrigir nossos erros. Isso é belo, bom e justo, mas limita nossa liberdade. Quanto menos errarmos, mais liberdade temos, e só o conhecimento impede a queda em novos erros.


Notas:

1 – A percepção e as crenças não mudam a realidade. Todavia, elas mudam a nossa relação com a realidade. Mudando crenças mudamos nossa forma de pensar, de sentir e consequentemente de agir. A consequência de um modo de agir diferente é, obviamente, a obtenção de resultados diferentes. Não é a troca da crença que altera a realidade, mas ela é o estopim para a mudança de atitude — e esta é a causa das mudanças.

2 – Não sou contra a existência do Estado, mas ele certamente está corrompido. Sugiro a leitura do brevíssimo capítulo 17 do Tao Te Ching. Quando o Sábio governa, o povo mal sabe que ele existe (…). Quando seu trabalho está pronto o povo diz, “Incrível! Fizemos tudo sozinhos!”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *