Espontaneidade e Criatividade

Eis aqui um trecho de um poema famoso por Charles Bukowski, intitulado “então queres ser um escritor…?”

Se não sai de ti a explodir

Apesar de tudo,não o faças.

A menos que saia sem perguntar

Do teu coração, da tua cabeça, da tua boca

Das tuas entranhas,não o faças.

Se tens que estar horas sentado

A olhar para um ecrã de computador

Ou curvado sobre a tua

Máquina de escrever

Procurando as palavras,

(…)

Quando chegar mesmo a altura,

E se foste escolhido, vai acontecer

Por si só e continuará a acontecer

Até que tu morras ou morra em ti.
Não há outra alternativa.
E nunca houve.

Charles Bukowski. Veja aqui o original.

Basicamente o que ele diz é: se a sua inspiração é tamanha que se você não agisse de acordo com ela você sentiria dor, então você é digno de fazer o que você pretende, seja ser um escritor ou qualquer outra coisa. Se você tem que se esforçar pra produzir, ou seja, se aquilo não flui de você sem esforços, se aquilo não sai de você como se você fosse mero veículo, não faça. Não tente. Você é indigno.

Esse sentimento que ele descreve que faz “sair sem perguntar da tua cabeça, da tua boca, das tuas entranhas” é a inspiração. Sentir-se inspirado é uma coisa maravilhosa. É um estranho magnetismo. É como ser puxado em vez de ter que empurrar. É uma coisa linda

O que ele propõe, todavia, é que só se deve fazer aquilo que se ambiciona se estivermos capturados pela inspiração. É uma ideia romântica, uma ideia bonita. Ainda assim, é uma ideia estúpida.

Na minha cabeça há belíssimas músicas, maravilhosas esculturas e incríveis pinturas. Entretanto, minha falta de habilidade me impede de pôr essas coisas pra fora. O que eu sou capaz de imaginar é muito superior ao que eu sou capaz de fazer.

Acredito que essa seja a regra. Imagino que com todos os que almejam alguma produção criativa, seja artística ou industriosa, têm em mente algo superior ao que conseguem produzir com suas mãos.

O que criamos materialmente é uma cópia imperfeita do que criamos mentalmente. O que distancia o ideal do real – no âmbito da produção criativa – é a habilidade. Quanto maior nossa habilidade melhor conseguimos converter nossa imaginação em realidade.

E para fazer a habilidade florescer, se quisermos ser sinceros e de se de fato temos a ambição — a audácia de ousar querer criar no mundo real alguma loucura, algo que imaginamos em nossas cabeças — esperar que a inspiração nos atinja como um raio é falhar.

Vejo nisso um padrão constante entre muitas pessoas criativas. Essa atitude reflete uma crença bastante compreensível: que a arte nasce da espontaneidade, que ela vem quando ela vem, e não tem como fazer ela vir, forçá-la.

Isso é uma preguiça chique.

E isso não se aplica somente à arte plástica ou à música. Isso também inclui a escrita, a escultura… potencialmente também o exercício físico, para os que almejam o atletismo; a matemática, a ciência. Onde a prática é necessária está presente a maldita crença de que a inspiração guia a prática.

Agir dessa forma seria análogo a deixar os próprios sonhos para serem realizados por Deus, racionalizando a falta de ação como uma espera pela inspiração divina. “Não tenho que me esforçar! Virá quando vir”.

Better Call Saul. Ótima série.

Essa é uma tendência compreensível. Vemos beleza, sublimidade, elevação em coisas belas. A produção criativa é uma das mais belas potencialidades do ser humano: quem sou eu para azedá-la, temperando-a com a obrigação?
E é aqui que entra a dor, a mácula. Todo artista, todo inventor — todo criador –, para conseguir imprimir no mundo sua própria visão precisa ter disciplina. Precisa ser um guerreiro.

Um guerreiro?

Robert Moore, em Rei, Guerreiro, Mago, Amante descreve alguns dos arquétipos que compõem nossa personalidade.
Arquétipos são, resumidamente, padrões de pensamento, sentimento e atitudes que têm estado presentes na historia humana há séculos, possivelmente há milênios e quiçá sejam algo que herdamos de nossos ancestrais primatas não-humanos. Tão entranhados na nossa história são esses padrões que se constituíram como construtos psicológicos fundamentais da mente humana, e deles emanam nossos valores, assim como a distorção destes. Uma explicação mais rica sobre o que são arquétipos pode ser encontrada aqui (com legendas em português).


Não exatamente, mas próximo o suficiente: arquétipos são memes anciões que humanos têm programados profundamente em seus cérebros


Diversos arquétipos constituem a forma como vemos nos mesmos e outros no mundo. O mago é aquele que domina assuntos opacos, esotéricos e de difícil acesso à maioria. Aos olhos de muitos, esses podem ser os matemáticos e os engenheiros talentosos; um músico que lê uma partitura e a reproduz de forma bela tem acesso a um conhecimento arcano e esotérico aos olhos dos que não conhecem seu ofício — ele é um mago.

O louco, ou bobo, seria por sua vez aquele indivíduo inocente, muita vezes ousado em excesso. Aquela pessoa que, a despeito de todos os conselhos, ousa envolver-se naquela tarefa que qualquer indivíduo em sã consciência se absteria. Temos aqui adolescentes; temos empreendedores, bem e malsucedidos; temos todos aqueles que ousaram rejeitar os conselhos preenchidos de medo, dúvida e cuidado dos mais velhos.

Mas aquele que ousa criar deve incorporar o guerreiro. Interessantemente, esse arquétipo é largamente reforçado em nossa cultura: o brasileiro é guerreiro, batalhador, sabe o que quer. O guerreiro é aquele que faz aquilo que é difícil. Contra a sua vontade ele se afirma no mundo – – contraria os próprios desejos momentâneo em prol de um ideal de futuro que pode criar; alguma causa que pode salvar; alguma responsabilidade a cumprir. Uma visão a manifestar. Objetivos a alcançar. Uma obra a produzir.

Objetivos são responsabilidades. Responsabilidades são fardos. Objetivos, portanto, são fardos. Não é à toa que a condição humana é retratada pelo mito de Sísifo: um homem condenado a carregar uma pedra para o topo de uma montanha, que invariavelmente cai de volta para o pé quando alcança o cume. Qualquer um que alcançou um objetivo alguma vez na vida, seja qual for, sabe como é isso: uma sensação de confusão. “Alcancei, e agora?”

É chato chegar em um objetivo num instante
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

— Raul Seixas

Entretanto, a criatividade continua sendo algo caótica. Quero produzir algo, mas não sei bem o que é. Ainda assim, não tenho a habilidade pra produzir o que tenho em mente. Como proceder?

A espontaneidade e a criatividade são coisas caóticas. Não é incomum que um artista comece uma obra sem saber no que ela vai dar: ele o descobre enquanto faz. Como posso controlar isso?

Não é possível controlar o incontrolável. Ter inspiração talvez seja realmente uma dádiva divina, mas esperar por ela é uma estratégia disfuncional. Por conta disso existe um remédio, um elemento complementar da espontaneidade, mas tão a ela oposto em qualidade como em grau: a rotina.

Rotina. Essa palavra invoca imagens de cigarro apagado e um cinzeiro sujo. Roupas sociais e gravatas em um cubículo. Uma expressão de “mais ou menos” contorce o rosto; uma pontuação maior que quatro mas menor que sete. É segurança, mas aquela segurança que nasce de vender a alma em prol de um bom emprego. Todo o potencial preso em um cubículo, e refletindo nos olhos daquele limitado por essa condição não jaz a Beleza e a Vontade do Infinito, mas uma planilha de Excel: o relatório pro final do expediente.

Tudo isso é invocado pela palavra “rotina”. É praticamente uma palavra mágica, capaz de alterar completamente o estado de ânimo de alguém que a ouve ou imagina.

O outro lado da rotina é o da segurança. O controle. A previsibilidade. O hábito. Se tomado em excesso, vira rigidez. E madeira rígida em excesso não se curva: quebra

A rotina tem uma qualidade analítica, lógica, fria, segura. Como uma espécie de linhas e ângulos, é previsível.

Previsível e rígido

A criatividade, a inventividade e a espontaneidade, por outro lado, são caóticas. Não é um caos no sentido pejorativo – pelo menos não a princípio. Remetem a imprevisibilidade: estão fora da caixa. Como diz o motorista na primeira cena de Waking Life:

“Tudo depende do que você faz com os gizes de cera que você recebe. E não se preocupe em desenhar por dentro das linhas ou colorir fora delas. Eu digo que você deve colorir por fora das linhas. Sabe o que eu quero dizer? Colore até fora da folha. Não me ponha numa caixa”.

Caótico e espontâneo

Isso remete à liberdade, e junto com a liberdade vem o indefinido. E o indefinido é bom: surpresas, novidades, mudanças. Criatividade

Todavia, ser caoticamente indefinido é viver andando em círculos. É render-se ao caos do descompromisso. É andar um milímetro em cada direção: porque é fácil ter inspiração quando se está começando, e é fácil começar dez, cem, mil vezes. É fácil ter inspiração sem compromisso.

Mas ambas as propostas são horríveis! Ou eu prostituo meu espírito em troca do controle, ou eu me fado a uma eternidade sem resultados

Interessantemente, se a prática criativa emana de começar a fazer algo sem criar expectativa, porque não fazer disso uma padrão?

O artista não sabe o que faz. Ele começa a fazer e descobre no meio do caminho. Por que não trazer junto a previsibilidade da rotina e o caos da espontaneidade

É o que fazia Mozart: que diziam que veio do céu, em vez de ir para lá. Um dos músicos mais ilustres da nossa história, que infelizmente não alcançou o reconhecimento ainda em vida. Tinha uma disciplina rígida: um horário definido todos os dias para trabalhar em sua música

Stephen King, um dos autores mais insanos que já vi, tem um hábito semelhante: todo dia ele se força a escrever seis páginas. Editar fica pra depois, mas o compromisso é esse: escrever seis páginas

“A inspiração existe, mas deve encontrar você trabalhando”.

Pablo Picasso

O que essas pessoas fazem é pegar a estrutura mortífera da rotina e usá-la para criar um contexto em que a criatividade floresce. Quem nunca passou pela situação de procrastinar para fazer alguma tarefa, mas assim que começa a faz com maestria? A tarefa flui, o tempo some, é até algo interessante. Só precisava mesmo era do pontapé inicial: começar.

Há ordem, mas não há rigidez.

E quando a inspiração de fato vir, estaremos preparados para nela montar qual um cavalo, e com ela viajar seja para onde for que nos leve.


Desde pequeno eu desenho, mas caí no vício, proveniente da ignorância, de só desenhar quando batia a inspiração. Havia anos em que a inspiração estava ali todo santo dia. Houve períodos em que fiquei dois anos sem desenhar. É da dor que vem disso que saiu este post.

É importante ser sincero consigo mesmo. Se o que quero é trazer as coisas da minha imaginação para o mundo, preciso então cultivar a habilidade necessária para fazê-lo. Que habilidade é essa? Quais são os pontos em que minha habilidade se mostra em falta?

Em cima disso, quanto tempo posso dispor todo dia para cultivar essa habilidade? Preferencialmente todo dia. É nisso que constitui a estruturação de uma rotina desejável: criar uma certa rigidez, uma certa previsibilidade, para poder tornar aquilo que é do meu interesse meu hábito.

O primeiro problema é alocar tempo. O segundo é saber quanto tempo. O terceiro problema é definir quantos objetos de interesse serão alvo da minha dedicação.

Friso este terceiro. É fácil, ao descobrir o fogo da vontade, que se vicie em uma espécie de aparente progresso. Pode-se querer trilhar vários caminhos simultaneamente: vou aprimorar meu desenho, vou aprender música, vou tocar violão, vou estudar matemática… É necessário, entretanto, ser realista: o que limita meu tempo? É importante notar que esses limitantes não são necessariamente seus inimigos (faculdade, trabalho, família), mas podem ser (netflix, redes sociais etc.).

Somando a este ponto, é interessante notar que não há progresso verdadeiro se a gente fica trocando de interesse o tempo todo. Alcançar uma habilidade mais-ou-menos em um monte de coisas é bem rápido.

Por último, acumular objetos de interesse tem o problema do estresse. Pode funcionar se você faz só essa coisa e portanto sobra bastante tempo pra relaxar, para desestressar, que é importante (refiro então ao primeiro post deste blog ). Mas isso é improvável. Muitos têm que trabalhar, estudar, ou cuidar de terceiros. Portanto é interessante não cultivar muitos interesses ao mesmo tempo. Já caí inúmeras vezes nesse vício e acho provável que eu ainda vá cair de novo no futuro

Você deve sempre trabalhar não apenas dentro da sua capacidade, mas também abaixo dela. Se você pode lidar com três elementos, lide com apenas dois. Se você pode lidar com dez, então lide com cinco. Dessa forma os que elementos que você lida você o faz com mais calma, com maior destreza, e também cria um sentimento de força preservada.

Pablo Picasso

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