Estratégia Tio Patinhas contra boletos

Como foi dito no último post, este aqui será um tutorial de como organizar-se frente ao próprio dinheiro.

Abra o docs.google.com/spreadsheets/u/0/, ou então o Excel ou o Libre Office Calc. Eu pessoalmente uso o Libre Office Calc, mas escolhi usar o Google Sheets aqui porque é mais… neutro (?).


O que que a gente vai fazer? Resumindo: nós vamos listar o dinheiro que nós ganhamos, que é o que entra, e o dinheiro que nós gastamos, que é o que sai. Vamos da seguinte forma: o quanto temos/recebemos, o quanto temos vamos pagar nesse mês, o quanto pagamos todo mês e o quanto está sobrando nesse momento.

Vamos dividir em algumas etapas simples:

  • Como está disposta a planilha;
  • Como organizar a planilha;
  • Como automatizar algumas funções (a grande sacada);
  • Como agilizar de forma chique usando constantes (opcional mas valioso);
  • Como ter a planilha sempre atualizada e disponível.

Vamos lá.


Abra o Google Sheets.
Se parar pra olhar em volta vai perceber que existe uma série de outras planilhas já prontas. Elas são ótimas e têm mais funções do que a que faremos aqui. Ao meu ver, porém, elas podem ser um pouco exageradas, e não proponho começar com elas porque acredito que seja uma boa ideia entender o básico a respeito de planilhas primeiro. Não há nada que te impeça de dar uma olhada nelas. Até recomendo. Também vou disponibilizar a planilha do tutorial no final do texto.

Vamos começar, portanto, com a planilha Em Branco.

Você já jogou xadrez? Ou então Batalha Naval? A planilha está disposta da mesma forma que um tabuleiro desses jogos. Nós temos colunas com letras e linhas com números:

Depois de saber isso é simples. Uma parte significativa do problema é simplesmente considerar como dispor a planilha. Um bom esquema é o padrão “nome:valor”:

Em que “paçoca” é o nome e “1” é o valor.
Sabendo disso, nós temos que dividir a planilha em seções. Vamos dividir em cinco:

  1. O quanto a gente recebe;
  2. O quanto a gente gasta todo mês (custos fixos, como conta de internet e celular);
  3. Cartão de crédito (custos temporários, assinaturas);
  4. Custos variáveis (contas que variam, como luz e gás, assim como o custo com transporte, já que cada mês tem um número diferente de dias úteis)
  5. O quanto a gente tem (o quanto a gente recebe menos o quanto a gente gasta ou vai gastar).

E a gente pode então organizar da seguinte forma:

Você também pode dividir em blocos de prioridade, como “necessidades”, “supérfluos”, “poupança” etc

A gente pode criar essas grades em volta das áreas clicando neste ícone:

E pra fazer com que uma célula ocupe um espaço maior do que o tamanho atribuído a ela basta selecionar as células desejadas, clicar em Formatar > Mesclar Células > Mesclar todas. Também convém fazer com que tudo o que for escrito caiba dentro das células em que a gente vá escrever as coisas, selecionando tudo apertando CTRL + A (uma a duas vezes), e então clicando em Formatar > Ajuste de Texto > Ajustar.

Então a gente pode começar a popular:

Colori diferentemente cada área porque eu acho que assim fica mais fácil de me situar na planilha. Também adicionei uma seção “resumo” no canto superior esquerdo. 

Eu criei um personagem pra fazer esse tutorial. Isso foi feito pra ser impessoal, já que a situação de todo mundo vai variar bastante. Esse personagem tem um emprego e uma bolsa de iniciação científica, ama paçoca e é tonto o suficiente pra se deixar enganar por esquemas que prometem enriquecimento fácil.

A gente pode ver que o cabra que é o dono desse orçamento não fez ótimas escolhas. Se empanturrou de paçoca e entrou num esquema de pirâmide e acabou perdendo dinheiro. É fácil perder a conta das coisas quando a gente não tá olhando de perto.

“O que é medido é gerenciado”.

— Alguém, provavelmente um tal de Peter Drucker.

Assim como calorias em uma dieta — você não sabe o quanto ingere se não contar — também é o dinheiro no dia a dia. As coisas viram bola de neve. Algumas paçocas por dia nesse padrão e o cara vai gastar mais de cinquenta reais por mês só com paçoca. Essas coisas não são percebidas se a gente não coloca tudo no papel dessa forma.

A gente também pode ver que tem algumas células em branco, como “Passagens de Metrô”, bem como “Entrada”, “Saída” e “Remanescentes”. Essa planilha tá incompleta. Ela é só um catálogo. Ela não calculou nada pra gente. Na pior das hipóteses, a gente teria que somar tudo sempre que atualizasse a planilha, mas tem uma forma de contornar isso.

Perceba que o sinal de igual (=) vem antes da operação.

Você pode realizar cálculos simples sem precisar fazer você mesmo os cálculos. Em uma célula você pode escrever, como no exemplo ao lado:

Automaticamente o valor será substituído por “4” quando a gente apertar Enter.

Sabendo disso a gente pode atualizar o preço das passagens de metrô em um mês:

Em que uma passagem custa R$4,60, são compradas duas por dia, cinco dias por semana, quatro semanas por mês (em média). Você também pode somar células entre si. Exemplo:

Valores fictícios e levemente exagerados

Isso é extremamente útil. Nós já não precisamos calcular tudo manualmente — o programa faz isso pra gente. Mas e se a gente tivesse que atualizar uma das células sempre que a gente adicionasse um item à coluna? Isso poderia ficar incrivelmente chato bem rápido. Pra contornar isso nós podemos usar funções.

Existe uma miríade de funções nos programas de planilha. Como a maior parte dos programas divide o formato .xlsx, eles são em geral compatíveis entre si, salvo alguns casos específicos. Pro que a gente tá fazendo aqui o único problema que você tem que se ater é se o programa está em inglês ou português. Nós vamos usar a função de soma, que funciona da seguinte forma:

=SOMA(DE:ATÉ)

Exemplo:

Ou seja, somar de C10 até C100

Nesse caso, ela vai somar da C10 até C100. C100 foi um número arbitrário, pois eu acredito que dificilmente alguém terá mais do que 90 fontes de renda em um mês. Use SUM em vez de SOMA se por alguma razão o seu programa estiver em inglês.

Isso vai te libertar da necessidade de sempre ter que atualizar uma determinada célula sempre que mexer numa coluna. E a gente pode criar uma entrada que usa os valores de diversas funções de uma só vez:

E esse é o dinheiro que essa criatura gastará nesse mês. Por fim:

Com isso a gente calcula a diferença entre o dinheiro que a gente recebe e o dinheiro que a gente gasta, e assim fica muito mais fácil não só saber o quanto a gente gastou mas também o quanto dinheiro a gente vai ter depois de pagar tudo o que a gente tem que pagar.

No final das contas, o dinheiro que sobra depois das contas e coisas como passagens é o dinheiro que a gente tem de verdade, por isso é interessante prever o quanto a gente vai desembolsar nessas coisas antes mesmo de fazê-lo.


Agora vamos complicar um pouco as coisas. Essa é a parte opcional, mas ainda recomendo que considere lê-la. Considerando um mês qualquer, como o que estamos, e ignorando os feriados:

Nós temos quatro semanas inteiras, do dia 1 ao dia 26, e dois dias sobrando no final, 29 e 30. A conta ficaria algo assim:

=(4.6*2*5*4) + (4.6*2*2)

São duas passagens por dia, cinco dias por semana por quatro semanas… mais dois dias sobrando no final do mês. O que acontece se tiver um feriado que a gente esquece, ou então se você dorme fora de casa um certo dia, ou falta à faculdade ou o trabalho? Onde você mexe, como você mexe?

A conta pode facilmente se tornar algo bizarro, ainda mais considerando feriados como a páscoa, ou se por alguma razão ficamos em casa em um dia útil qualquer:

=(4.6*2*5*4) + (4.6*2) - (4.6*2*4)

Isso quase já não é compreensível e se você voltar pra ver isso depois de semanas pode acabar parecendo algo completamente sem sentido. Dá pra fazer isso até de uma forma menos redundante, mas requer um pouco mais de ginástica mental.

Em cima disso, graças ao fato de que vivemos sob a administração de maravilhosas entidades governamentais que não são nem superficial nem profundamente enviesadas, nossas passagens de trem, ônibus e metrô não param quietas. Elas têm aumentado praticamente a cada semestre.

Pra contornar isso a gente pode criar alguns nomes ou intervalos nomeados como, por exemplo, TREM, pra simbolizar o preço da passagem de TREM ou Metrô. Vamos criar uma nova página pra separar tudo bonitinho e não transformar nossa planilha numa zona:

Basta clica no sinal de “+” no canto inferior esquerdo da página

Vamos então criar alguns nomes:

Se quisermos fazer vários temos que repetir o processo.

Podemos então repetir o processo pra fazer com que TREMD (Trem-Dia) seja igual a =TREM*2, e, se desejar, criar um “TREMW” que pode ser igual a =TREMD*5.

Então usamos esses nomes da seguinte forma:

Em que nós temos quatro semanas mais dois dias, e isso torna mais fácil fazer alterações. Se a gente falta um dia a gente subtrai um dia (TREMD), e assim por diante.

Por fim eu gosto de remover a grade do fundo pra ficar mais esteticamente agradável, menos visualmente poluído. Pra isso basta clicar em Ver, na barra de menus, e então desabilitar as Linhas de Grade. A parte mais complicada está terminada.


Pra que isso seja realmente útil a gente precisa de um outro recurso: ter essa planilha sempre disponível, sempre sincronizada.

Pra isso eu escolhi usar o Dropbox, mas se você não gostar desse serviço você pode facilmente fazer funcionar com outra espécie de nuvem.

O que é necessário fazer?

  • Baixar o Excel ou equivalente no smartphone;
  • Baixar o Dropbox no smartphone;
  • Instalar o Dropbox no seu computador pessoal ou usá-lo direto do navegador;
  • Criar uma planilha dentro da pasta do seu Dropbox no seu computador, ou copiá-la para lá.

Você pode baixar a planilha que acabamos de fazer clicando em Arquivo > Fazer download como > Microsoft Excel (.xlsx). Depois de ter copiado o arquivo pro Dropbox basta acessá-lo pelo celular.

Ao clicar no botão de editar no centro da tela vai ser aberta uma caixa diálogo perguntando qual aplicativo se deseja usar pra editar o arquivo. Depois que isso é feito, a planilha passa a estar disponível offline, então também não haverá o problema de só se conseguir atualizá-la quando se tem acesso à Internet.

E é isso. Basta considerar que nada é indigno de adentrar a planilha: uma paçoca no trem ou um video game comprado à vista: ambos devem ir pra planilha.

Considerando esse hábito fica mais fácil criar uma hierarquia do que é mais valioso, do que é mais essencial, e facilita a criação de possíveis planos pra sair de buracos financeiros ou simplesmente aliviar uma certa ansiedade frente a quanto será que eu vou ter no final do mês, ou quantos salgadoces eu posso comprar sem me julgar excessivamente por isso?

Se por alguma razão o resultado disso te deixou desconfortável, provavelmente é porque ou você está negativado ou com pouco dinheiro sobrando após pagar tudo. Por mais duro que isso seja, ainda é melhor viver com esse peso do que viver ignorante dele, pois se a gente não mede o quanto a gente tem, a gente acaba gastando mais do que a gente tem, ou ficando ansioso e gastando bem menos do que a gente poderia. De qualquer modo, encarar isso dessa forma nos habilita a criar estratégias: o que eu posso tirar? O que eu posso inserir?

No fim, o que é valioso cabe a cada um decidir, mas é interessante poder decidir e principalmente não se afogar tentando decidir. Espero que esse post seja útil nesse sentido. Certamente não é o modelo mais profissional de planilha. Muitas costumam dividir entre dinheiro no banco, carteira, ou entre hierarquias de prioridade. Eu preferi não fazer dessa forma porque acho que é muita informação.

Eu poderia só ter tagarelado e entregado um arquivo de Excel, mas acredito que ensinar/aprender a construir você mesmo uma planilha é melhor porque permite que a gente possa adequar ela às nossas necessidades. A alternativa seria ficar dependendo de planilhas engessadas. Acredito que esse modelo aqui seja um bom ponto de partida, sem nem informação demais nem informação de menos.


  1. Se seu programa estiver em inglês fique atento para usar ponto em vez de vírgula ao designar centavos. Desta forma a entrada 3,41 (três reais e quarenta e um centavos) seria 3.41.
  2. No caso de salário é importante considerar o valor líquido, pós descontos, considerando 0.6% para a taxa de VT e 0.8% para a taxa do INSS, e eventuais contribuições sindicais, todos extraídos do valor original. Calcular porcentagem consiste em multiplicar pelo percentual desejado e dividir por cem. Exemplo: 24% de 52 = ( 24 * 52 ) / 100 = 12,48.
  3. O nome é porque o Tio Patinhas conta cada moeda. É só isso mesmo.

Por fim, o arquivo da planilha:

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