A importância do lazer

A gente vê todos esses canais no YouTube falando sobre “conquistar”, “vencer a mediocridade”, “usar o tempo de forma inteligente”. Ao lado deles nós temos também a pressão que pais, certos professores e a alguns pontos da sociedade colocam sobre a gente: você tem que estar sempre se esforçando. Enquanto você descansa tem um oriental estudando pra mesma prova que você em quatro línguas diferentes.

De forma alguma eu a intenção aqui é diminuir o valor deles. Pelo contrário, eles são importantíssimos motivadores pra que as pessoas ajam, mas tem o outro lado da moeda. Produtividade em excesso, foco em excesso, geralmente vem a um preço. O primeiro deles é o estresse.

E o que não pode vir em decorrência do estresse, não é verdade? Acho que só o estresse já basta como problema, porque ele é fonte de todo tipo de complicação. Professores, advogados, policiais, estudantes, médicos, administradores, gerentes… todo mundo sofre de estresse. Às vezes por causa de motivadores externos, como prazos e uma carga excessiva de trabalho. Às vezes por conta de uma necessidade patológica de ser produtivo, uma auto-cobrança exacerbada, o que eu chamo de “vício em produtividade”.

Já chamaram essas pessoas de “workaholics”, mas esse termo costuma estar associado ao vício em trabalho. Gente viciada em produtividade não se preocupa só com o trabalho. A própria existência é uma lista de afazeres. Até os hobbies demandam produtividade. Até o lazer pode incluir uma checklist. Pra essas pessoas, objetivos estão em toda parte: quase nada é feito por prazer; tudo é feito com uma intenção de avançar em algum aspecto. A obrigação está presente até no lazer. Eu já fui uma dessas pessoas.

Ainda não encontrei a solução absoluta para isso, mas encontrei algumas estratégias para tornar esse problema menos danoso à totalidade da vida.

Mas antes disso, por que isso é um problema? Ser produtivo é uma coisa boa, não é? Bom, sim. Água também é, mas em excesso ela provoca afogamento. O vício em produtividade pode nos levar a suportar doses absurdas de estresse por longos períodos de tempo; pode causar atrito em relacionamentos e pode desequilibrar diversos atributos da vida em favor de cortar uns itens da lista de afazeres, ou pra presevar a rotina perfeita. Por fim, pode diminuir a qualidade da produtividade, focando somente em quantidade.

Imagina o seguinte: você tem uma prova pra fazer daqui a uma semana. Qual é a melhor atitude: estudar um pouco todo dia ou virar a noite estudando no dia anterior? Com menos estresse, com menos pressão, seus estudos têm maior qualidade. Ficar estressado dificulta o processo de aprendizado. A gente tem que ler o mesmo trecho várias vezes seguidas pra entender. A gente fica bufando, exalando irritação quando algo se mostra complicado. Por isso que deixar tudo pra última hora não é uma boa estratégia.

Em “Aprendendo a aprender“¹, Barbara Oakley explica o processo neurobiológico do aprendizado, e explicita como o aprendizado depende da nossa memória. A memória precisa de tempo pra ser consolidada, e o estudo lento a longo prazo é muito mais efetivo que o estudo rápido a curto prazo. Em uma metáfora, ela resume: “aprender é uma maratona, e não uma corrida”.

Da mesma forma, ela explicita como o estresse pode ser contrabalanceado com o exercício físico, e como o estresse prejudica nossa capacidade de aprender.

E o estresse certamente acarreta muitos outros problemas. Por causa do meu vício em produtividade, sustentei estresse constantemente por dois anos seguidos pra poder “chegar lá mais rápido”. Hoje em dia desenvolvi uma leve hipertensão. É leve, mas ela tá lá, e todo o estresse e abuso de cafeína desses tempos certamente são responsáveis por isso. Certamente há genética envolvida, mas esses genes não haviam se expressado até que eu colocasse meu corpo e minha mente nos seus limites.

Por causa disso a gente pode concluir facilmente que o lazer é importante, e que o vício em produtividade acarreta problemas não só no âmbito social mas também para a saúde. Infelizmente existem alguns que ignoram isso completamente, e fetichizam a produtividade como uma espécie de certificado de superioridade.

Existem canais no YouTube que deliberadamente promovem que seus seguidores adotem práticas nocivas à própria saúde a fim de “alcançarem o sucesso” (sucesso este que seria, invariavelmente, a riqueza material).

Ao meu ver, de nada vale o “sucesso”, seja lá o que ele for pra você, sem saúde. Do que adianta alcançar aquilo que você sempre quis pra logo depois ter um surto, ou um ataque cardíaco, ou um derrame?

Invariavelmente, “sucesso”, independente do que seja, depende de disciplina. Por disciplina, leia-se: “fazer o que você precisa fazer quando você não quer fazer”. A gente adota disciplina pra ser produtivo, pra, através dessa produtividade, chegar mais próximos dos nossos objetivos, seja o que eles forem. E a disciplina depende de saúde. Não tem como você ter um bom desempenho no trabalho, no estudo, no esporte sem ter uma boa saúde. Não a longo prazo.

E mais: existe uma varíavel que é muito fácil de desconsiderar: o sono. O sono é particularmente importante porque um sono de má qualidade garante o estresse. Dormir mal resulta em ter um desempenho pior do que garantiria uma boa noite de sono, seja qual for a atividade, e eleva os níveis de estresse. Dormir bem é importante para estudar, pra trabalhar e até pra fazer dieta — porque se seu sono é irregular, é muito fácil que o estresse te leve a caçar docinhos em horas indevidas.

Além disso, dormir bem é crucial não só para garantir um bom estudo mas também para fixar o que foi estudado. No sono o cérebro faz boa parte do trabalho de armazenamento do que foi aprendido na memória de longo prazo.

Em Aprendendo a Aprender, Barbara Oakley descreve o que acontece quando a gente tá se dedicando por muito tempo a um determinado projeto, seja estudo ou trabalho, com muito foco. A gente pode facilmente ficar estressado, ainda mais se for uma coisa muito difícil. Esse estresse vai impedir a gente de continuar trabalhando nesse projeto com um bom desempenho.

Uma outra forma de aliviar o estresse seria o exercício. A Barbara Oakley explica, então, que o nosso corpo libera diversos compostos químicos durante o exercício que, além de nos dar prazer, também contrabalanceiam o estresse e faz com que a gente relaxe. É nesse “relaxamento” que tá o pulo do gato: quando você relaxa tanto em corpo quanto em mente, o cérebro entre numa estado que ela chama de “modo de pensamento difuso”, em que a gente tem menor foco, e quando a gente tem menor foco a gente vê as coisas com perspectiva. Ao por as coisas em perspectiva nós podemos fazer conexões entre tópicos que não achávamos que tinham relação, e experienciar o que é comumente chamado de “cair a ficha”.

O que acontece é que quando a gente relaxa o cérebro entra em modo difuso. A gente já não tá mais tão focado, e por causa disso não ficamos presos a antigos padrões de pensamento. Uma forma ótima de provocar esse relaxamento é o exercício físico. A gente sabia que ele é crucial pra saúde do corpo, pra gente não ter diabetes, problemas cardíacos ou outros problemas. Agora a gente também sabe que o exercício físico pode ajudar a gente a ser mais criativo, produtivo e calmo.

Há outras formas de provocar o pensamento difuso, mas todas elas envolvem o relaxamento. Abaixo colocarei um exemplo memorável em que isso aconteceu comigo:

Quando há dois anos atrás eu comecei a aprender a programar comecei com um curso no site edX chamado “CS50”, que ensinava ciência da computação e programação em C através da programação de enigmas e quebra-cabeças. Teve um desafio que foi pra gente montar um jogo em que a gente tinha um tabuleiro com vários números em ordem crescente. A gente devia poder escolher qual peça mover e pra qual lugar, e o objetivo final era fazer com que os números ficassem em ordem decrescente. Eu fiquei 12 horas seguidas, varei a madrugada pra fazer isso. Não consegui.

Depois dessa catastrófica madrugada, peguei um cronômetro de cozinha e setei ele pra 30 minutos. Nesses trinta minutos eu deitei no chão e… cochilei. Relaxei bastante. Quando levantei fui pro computador tentar resolver o problema de novo. Falhei mais uma vez. Fiquei mais uns cinco minutos e fechei a janela do programa. Aí eu fui pra cozinha beber água e aconteceu algo muito interessante: a resposta me veio automaticamente.

Era como se eu tivesse feito um download da resposta no meu cérebro, mas não tinha sido “eu” que coloquei pra fazer o Download. Ela me veio espontaneamente. Voltei pro computador e resolvi o problema em menos de cinco minutos.

Esse é um ótimo exemplo do pensamento difuso entrando em ação, e várias pessoas ao longo da história, como Albert Einstein e Salvador Dali, fizeram uso desse modo de pensar, mesmo que ele só tenha começado a ser estudado recentemente. No vídeo abaixo um matemático descreve o processo criativo dele, e cita uma situação dessas.

O vídeo possui legendas em português.


Isso mostra como o foco não é sempre a melhor estratégia para resolver um problema. Quem nunca teve um insight espetacular de baixo do chuveiro?

O foco é ótimo para quando sabemos o que fazer, mas se estamos perdidos e sem ideias do que fazer, há chances de que manter o foco só vai provocar um estresse infrutífero. Por isso é importante combater o estresse.

Ao lado do exercício e do sono há uma outra forma de combater o estresse: o lazer. A diversão.

A diversão é tão importante que Thomas Frank diz que nós devíamos tratar a diversão como uma obrigação — devemos reservar partes do nosso dia para nos divertirmos, quer queiramos continuar trabalhando, quer não. No seu vídeo “Defeat Procrastination By MAKING Yourself Have Fun”, “Derrote a procrastinação se OBRIGANDO a se divertir”, ele fala sobre um conceito que ele cunhou chamado “High Density Fun”, ou “Diversão de Alta Densidade”. Esse conceito seria basicamente um período de tempo que você reserva no seu dia pra se divertir — mas se divertir mesmo, não simplesmente ficar parado.

Infelizmente esse vídeo não tem legendas oficiais, mas ainda tem a tradução espontânea do YouTube

A “Diversão de alta densidade” seria alguma atividade que você faz no final do seu dia — idealmente nas últimas duas horas antes de dormir — que te engajam completamente. São atividades em que você faz parte da atividade, produzindo ela em vez de meramente consumindo, como jogos de tabuleiro, conversas significativas, e jogos de videogame.

Na verdade, jogos de videogame são um ponto frisado pelo Thomas Frank, e eu concordo: eles são uma ótima fonte de “diversão de alta densidade”, principalmente se a oferta deles é curta — ou seja, se você está limitando o quanto você pode jogar por dia.

Se a oferta for limitada, certamente a coisa terá mais valor. Tudo o que é limitado tem mais valor, e por isso é mais prazeroso.

Se você joga quando quer em qualquer parte do dia, você não tá realmente se treinando pra ver aquilo como recompensa. Se aquilo é o seu dia todo, e é potencialmente mais divertido do que as outras coisas que você sabe que tem que fazer, então por que você se esforçaria pra fazer essas coisas?

Essa é uma das fontes da procrastinação. Certamente isso não é sustentável, porque quando a gente procrastina a gente se sente estressado. Procrastinar estressa mais do que fazer o que a gente tá adiando. 

Existem formas de lidar com o estresse que são contraprodutivas, como beber bebidas alcoólicas. Ora, não que haja algo de errado com beber álcool, o problema é quando a gente usa ele pra compensar outra coisa, como o estresse e a tristeza, porque assim a gente acaba ficando dependente.

Obrigando-se a se divertir, mesmo quando o impulso é de continuar trabalhando, continuar estudando, cria uma tensão interessante: se você tem uma hora certa pro lazer você vai se esforçar pra terminar tudo antes dessa hora. Se você limita o tempo em que você pode trabalhar, da mesma forma que você limita o seu lazer, você também trabalha melhor, porque necessariamente você vai precisar de foco para fazer o que tem que fazer dentro do período de tempo que você mesmo estipulou pra si mesmo.

O segredo para uma nota alta, um trabalho bem feito, um bom exercício físico… é o descanso².


  1. Este curso, aparentemente em inglês, possui legendas em português. O curso está disponível inteiramente de graça no Coursera.
  2. Descanso necessariamente implica em estar cansado primeiro. Se você descansa sem nem mesmo ter começado então o nome é “preguiça”, e não descanso. Preguiça é procrastinação, e tal como a procrastinação também provoca estresse na forma de ansiedade.

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